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14 de abril de 2017

CONSCIÊNCIA ARBÓREA E O ESPÍRITO DA TERRA



Consciência Arbórea


Cotswolds
18 de agosto de 1925


Assim como todo animal, durante a encarnação, é um indivíduo, embora apenas temporário, assim toda árvore, durante sua vida, desenvolve uma individualidade própria. As grandes e velhas faias neste vale desenvolveram uma individualidade distinta, e deste modo possuem um senso de ser, uma pálida forma de autoconsciência.

O contato com este senso de individualidade produz uma estranha sensação, como se estivéssemos na presença de enormes e imóveis entidades, cada consciência em si separada do resto, cada uma possuindo uma certa porção de consciência própria, cada uma tendo uma atmosfera e exercendo uma influência definidas. Quando ultrapassamos o corpo físico da árvore encontramos uma personalidade, e sua consciência pode ser tocada. Agora mesmo, quando uma leve brisa agita a mata, suscitando o sussurrante murmúrio das faias e espalhando-o em suspiros por toda a mata, a consciência arbórea é consciente de sua chegada.

Sensações inteiramente novas são produzidas em minha consciência quando eu toco sua vida interior e adentro em algum pequeno grau o reino das árvores; é como penetrar em um país estrangeiro, vendo um tipo todo novo de pessoas, e me ajustando a novos valores. Sinto que este "povo" é muito sensível aos humores da Natureza, às mudanças de tempo e estação, e que ele certamente possui consciência suficiente para reconhecê-los. Poderíamos dizer que eles sentem e reconhecem cada brisa, através de um tipo de consciência que diria a si mesma: "Ah, eis a brisa da tarde, como seu toque é agradável quando faz meus ramos ondularem e meu tronco oscilar, e minhas folhas roçarem". Quase arrisco dizer que ela procura suas companheiras mais próximas para dizer "Ela voltou".

Esta consciência embebe cada ramo e cada raiz da árvore, embora seu centro pareça estar no tronco principal; ele parece sensível até as derradeiras extremidades dos ramos, de modo que cada movimento das folhas e galhos mais distantes envia uma vibração através de algum sistema nervoso embriônico, alguma linha astral de sintonia, ao longo da qual as sensações chegam à consciência central. No caso das faias, a impressão que se recebe é decididamente a de uma personalidade masculina, e continuamente me vejo pensando nelas como homens árvores. Um contato mais íntimo revela a presença de algum tipo de pressão interna para o crescimento, a qual posso traduzir mais adequadamente como um desejo de se estender; como se a vontade divina, que está sempre pressionando para diante ao longo da senda evolutiva, se manifestasse deste modo na consciência arbórea, de maneira que o "homem árvore" sente um desejo de se esticar mais e mais além dos últimos galhos de seu corpo físico; a sensação é semelhante à de enfiarmos a mão em uma luva, só que em vez de cinco dedos aqui há milhares. É um território estranho para a consciência humana, um território onde as árvores são cidades com seu povo vivendo muito junto, os raminhos e tufos terminais são vilas distantes e, de certo modo, o todo é visto como unido, sendo parte de uma grande consciência, o grande ser-árvore, cujas crianças são todas as árvores.

O homem-árvore é o somatório da consciência astral da árvore; e ele usa o duplo etérico da árvore como veículo através do qual ele recebe sensação física. Considerado do ponto de vista da alma-grupo, cada árvore dentro dela é vista como uma encarnação individual, variando em desenvolvimento principalmente de acordo com a idade. O uso da palavra “indivíduo” deve ser aceito com reservas, embora quanto mais eu investigue mais eu percebo que existe uma entidade definida no caso das grandes e velhas árvores, e que isto é algo que corresponde ao sentimento de família em seu próprio nível, uma consciência de relacionamento grupal. O sentimento mais forte de que são capazes resulta do vívido fluxo da força vital através do duplo-etérico da árvore; isto é uma perene e sempre crescente fonte de sensação, que deve ser traduzido como a de prazer.



Toda árvore tem um coração vital, uma espécie de plexo esplênico e solar fundidos em um só, no qual as forças vitais se derramam, e de onde são distribuídas por todo o sistema. Quando me recosto em uma grande e poderosa faia, e em certa medida entro em contato com a consciência em seu interior, a contínua vibração daquele processo é muito nítida – de fato, todo o meu corpo vibra em sintonia, e os corpos etérico e astral também são poderosamente afetados; é uma sensação ondulante e rítmica, com algo em sua fonte vagamente correspondente a um pulsar; posso ouvir o som disto, astralmente, como se a árvore fosse um diapasão em vibração contínua; isso me dá a impressão de uma nota de canto, um murmúrio afinado, vindo do próprio centro do tronco e ressoando por todo o sistema. Quando uma rajada de vento atinge a árvore ocorre uma modulação; a nota muda e varia continuamente de acordo com a intensidade e direção do vento. A brisa agora é muito leve e intermitente, e a mudança não é mais do que um quarto de tom acima e abaixo da nota fundamental.

Esta experiência suscita em mim estranhos sentimentos, não “memórias”, como se eu fosse levado de volta a períodos remotos quando eu também vivia em condições similares; de fato, tudo é estranhamente e cada vez mais familiar, e, à medida que eu me acostumo às vibrações e me torno mais capaz de me unificar a elas, quase sinto que as árvores, por sua vez, ficam cônscias de maneira vaga daqueles que as amam e admiram.

O novo ponto de vista que emerge desta experiência é que as árvores não são apenas madeira em crescimento, membros úteis do reino vegetal, ou meras características da paisagem – elas são coisas vivas e extremamente sensíveis. Elas estão se aproximando do cume de sua montanha evolutiva, se abeirando dos limites de seu reino.

As árvores que cobrem este vale têm muitos amigos vivos, e eu pareço ouvir o murmúrio de suas muitas vozes como quando vizinho conversa com vizinho entre o frescor primitivo e a imaculada e poderosa pureza do mundo arbóreo.

Torno-me consciente de uma profunda felicidade e contentamento, e me ocorre o pensamento de que a humanidade poderia muito bem tentar construir em seu caráter um pouco mais da robusta força e estabilidade, do modo de ser profundamente rítmico que caracteriza tantas das árvores.

O Espírito da Terra



- Nota de um Deva -


23 de agosto de 1925


“Todas as coisas que tu chamas de ‘Natureza’ – árvore, flor, semente, raiz, grama, montanha, monte, colina e vale – são expressões da vida do Grande Ser que tem esta Terra como o seu corpo físico. Tu podes pensar nas pedras como o esqueleto e o solo como a carne, os rios como os vasos sanguíneos, a água dos rios e mares como o sangue e as correntes magnéticas como fluindo ao longo dos nervos deste corpo – a vegetação mantendo a mesma relação para com este corpo que o cabelo para com o teu.

“Tu estás certo em supor que o Reino de Pã está incluso neste corpo, embora tenhas ainda muito a aprender sobre seu lugar ali. Pã manifesto é uma efloração da consciência da Terra, uma expressão relativamente ativa daquilo que normalmente é quiescente.

"O Espírito da Terra se expressa através da Terra como uma forma ou veículo, mas não como os humanos ou os devas o fazem, muito pelo seu movimento e atividade, mas através do crescimento e desenvolvimento de seus produtos naturais. Dizendo isso, não devemos esquecer que a revolução da Terra em torno de seu eixo e sua translação em sua órbita em torno do Sol constituem formas de movimento, que também têm sua parte na expressão e evolução da consciência do Espírito da Terra, como se tu te expressasses apenas pelo crescimento e movimento de teu corpo. Esta estupenda consciência se difunde igualmente por todo o globo, e tem seu centro no coração da Terra, e centros subsidiários em outras partes, relacionados a certas áreas especiais na superfície. É nestas áreas ou centros de força do Espírito da Terra que se reúnem as grandes civilizações. O Egito, por exemplo, é um deles. Shamballa é outro; existe outro ainda na Índia, um na Europa Central, um na Irlanda – outros onde hoje existem mares, a serem usados pelas humanidades do futuro. As hierarquias estão conscientes destes centros e os utilizam para progresso de seu trabalho. O Espírito da Terra é um ser em evolução, assim como o globo é uma forma em evolução que já passou por todos os graus de densidade, e, tendo atingido o ponto mais denso, iniciou sua jornada ascendente. As mudanças na vegetação, o crescimento gigantesco das florestas arcaicas, o desenvolvimento de novas espécies – de árvores, cereais, frutas e flores – tudo isto é expressão da consciência em evolução do Espírito da Terra. E tudo aponta para uma culminação numa unidade que integra a Vida Única que está por trás de toda forma manifesta neste planeta, e neste sentido ele é um representante do Logos. Aquele ‘estender-se’ da consciência da árvore que tu sentiste em outra tarde resulta da pressão ascendente de sua vida em evolução, assim como o fazem o vulcão e a inundação. De outro ponto de vista, ele é a lente que focaliza a vida do Logos e a expressa como o ímpeto incessante e irresistível, o poder condutor que, estando por trás de toda forma, produz crescimento, e sem o qual haveria estagnação. A expressão de sua consciência, contudo, não se limita os reinos mineral e vegetal; já produziu outras formas, nem humanas nem animais, é verdade, mas tendo a aparência de ambos: são as criaturas de Pã. Estranhas e sobrenaturais como possam te parecer, elas são expressões naturais de certos aspectos de sua consciência; quase poderias considerá-los como suas brincadeiras, ou talvez como sendo resultados de certos experimentos que ele fez.

"Nas remotas eras do passado, antes do desenvolvimento da mente, estas criaturas de Pã eram mais objetivas, mais materiais, e de fato andaram na Terra, e ocasionalmente foram contatadas pelos primitivos homens da Arcádia. Quando começaram as grandes mudanças que o desenvolvimento da emoção e da mente trouxeram à vida humana, Pã já não foi considerado um associado desejável, e portanto foi retirado do plano material, mas ele ainda existe e pode ser encontrado ainda, como tu provaste. Pode ainda retornar mais adiante um tempo em que esta associação seja retomada. Pã estava no arco descendente quando o seu ciclo e o da humanidade se tocaram no passado: no futuro distante, quando o ponto correspondente for alcançado no próximo ciclo, Pã estará na senda de retorno.

Entre as muitas grandes mudanças que estão acontecendo, uma surgirá como resultado do que pode ser descrito como um despertar do Espírito da Terra dentro de sua forma, um despertar que trará certos aspectos de sua vida para mais perto da superfície e mais ao alcance da consciência humana. Os efeitos disto serão muitos. Um deles será o de levar os homens mais para perto da Natureza, e deste modo permanecerem simples entre a complexidade cada vez maior que tão marcadamente caracteriza a presente fase do desenvolvimento humano. O contato com ele tenderá a desenvolver o lado místico da consciência humana, e exercerá um efeito coordenante, sintetizante e unificante sobre o homem. Todos estes desenvolvimentos, embora aparentemente resultados de diversas correntes de vida, estão previstos para ocorrerem em certos períodos particulares; pois por trás da diversidade, por trás mesmo do Espírito da Terra, existe a Vontade Única que é onipotente, a Mente Única que é onisciente, e a Vida Única que é onipresente, e, coordenada por isto, a evolução prossegue irresistível, perfeitamente, em uma sequência ordenada de eventos em seu rumo majestoso”.

Obs: O deva que concedeu estas informações começou um esquema regular de ensinamentos em 1926, cujos primeiros frutos foram publicados sob o título de “A Fraternidade de Anjos e Homens”.


Fonte: Livro O Reino Das Fadas – Geoffrey Hodson - Primeira Edição em 1927 - The Theosophical Publishing House - (Londres).

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