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29 de maio de 2017

UM DEVA ESTIMULANDO A EVOLUÇÃO DE UM GNOMO



Letchworth (Inglaterra)


3 de janeiro de 1925


Durante os últimos seis meses estive consciente de que um membro da família dos gnomos, que havia conseguido obter uma medida de autoconsciência maior do que alguns de seus irmãos, tem desenvolvido um crescente interesse em nós. No verão ele geralmente aparecia assim que saíamos da casa e entrávamos no jardim, correndo do pomar através do gramado, e atraindo minha atenção com lampejos etéricos. Demos pouca atenção a ele na época, mas desde que chegou o inverno ele passou a entrar na casa. Durante nossos serões em torno do fogo, ele é frequentemente visto brincando pela sala, passando para dentro e para fora das janelas, e mostrando tanto interesse em nós como o faria, digamos, uma ave doméstica ou um esquilo.

Ele tem exatamente cinquenta (50) centímetros de altura. Fui capaz de medi-lo porque sua cabeça atinge a ponta de certo ornamento nas pernas do piano. Sua pele é muito escura, e seu corpo de uma textura esponjosa, antes como o solo que foi congelado e degelou. No jardim ele costumava correr sem nenhuma roupa, embora ocasionalmente colorisse seu corpo com um verde escuro. Esta noite, contudo, noto que ele fez uma nítida tentativa de elaborar um traje, mas, curiosamente, o efeito não é produzido pelo acréscimo de vestes materializadas, mas por uma mudança na própria superfície de seu corpo, exceto no caso de sua imitação de um colarinho branco. Isto, obviamente, é um acréscimo; mais ainda, é algo a que ele parece dar considerável importância, pois quando ele se dissipa, como continuamente ocorre, ele o refaz assim que percebe sua ausência; de fato, ele não permite que se desvaneça por completo, e por ora sua contínua rematerialização ocupa uma boa parte de seu tempo. 

As linhas e margens de seu casaco e colete, este último completo, com botões, aparecem na textura do que corresponde à sua pele, e ele consegue uma boa medida de permanência nos contornos. Com as calças ele ainda não teve muito sucesso, e até onde posso observar ele não fez qualquer ensaio de algum tipo de calçado. Seu pescoço e braços são finos, e longos demais para o nosso senso de proporção, e sua cabeça e membros são tão frouxos e esponjosos que neste aspecto ele me lembra uma boneca de trapos; mesmo assim ele consegue em certa medida enrijecê-los à vontade, como tem estado fazendo ao executar uma espécie de dança sacolejante, através da qual dá expressão a seus sentimentos de prazer por nosso retorno de uma ausência de dez dias. Os movimentos de suas danças são uma oscilação do corpo de um lado para outro, as pernas sendo mantidas juntas e depois curvando-se para fora, primeiro para a direita e então para a esquerda, os braços ao mesmo tempo sendo erguidos acima da cabeça. Estes movimentos não provocam uma mudança de posição na sala, embora resulte num tipo de movimento vagaroso e circular.

A face é a mais desairosa, sendo quase negra, e a testa é longa e muito encurvada. Não há sobrancelhas, só pequenas órbitas e dois pequenos olhos redondos e negros como botões de sapatos, bochechas pequenas, ou antes afundadas, nariz longo e pontudo, boca larga, por meio da qual, junto com a expressão de seus olhos, ele é capaz de registrar algo de natureza semelhante a um sorriso de prazer. O queixo é pequeno e não tem forma fixa, mas varia de acordo com a expressão de sua face. Os braços terminam na aparência de um punho fechado; seus pés têm cerca de quinze (15) centímetros de comprimento, e são pontudos.

Por mais desajeitado e estúpido que esta descrição possa fazê-lo parecer, existe um pequeno espírito muito brilhante habitando aquele corpo. Embora não seja capaz de nada que se aproxime de uma verdadeira afeição, ele encontra prazer suficiente em nossa sociedade para fazê-lo esquecer de seus lugares habituais em favor do ambiente incomum do interior de uma casa. Ele é capaz de reconhecer minha esposa e a mim mesmo como distintos um do outro e de outras pessoas, e em nossa companhia ele acha um nítido prazer.

Ele não é tão sensível às vibrações de nossas auras astro-mentais como o são outras ordens de espíritos da natureza, e pode chegar bem perto de nossos corpos físicos, sentindo apenas prazer naquelas vibrações a que é capaz de responder. Depois de algum tempo ele sente um estímulo definido, e algo que corresponde no mundo dos sólidos a um ardor quente percorre seu pequeno corpo. Quando isto chega a certo ponto ele parcialmente se desmaterializa, e flutua para o jardim como se, naquele estado mais sutil, gravitasse para seu próprio mundo. Assim que o efeito passa, o que acontece em poucos minutos, ele volta e caminha pela sala completamente alheio.

Olhando dentro de sua mente – por uma extensão das faculdades que me possibilitam ver sua forma – não encontro nenhuma lembrança desta experiência, nada, de fato, além de uma vaga sensação de que é agradável estar aqui. Há um reconhecimento instintivo de que o conteúdo da sala lhe é familiar, mas sem nenhuma lembrança definida de qualquer contato prévio com ela. Ele não vê nenhum objeto como nós o fazemos. Quando no chão ele vê as pernas da mobília e das pessoas; ele não tem percepção de nenhuma parte superior ligada a elas. Não sou capaz de ver como ele nos reconhece, embora ele certamente mostre uma preferência por nós, e no verão ele frequentemente aparecia assim que púnhamos os pés fora de casa. Enquanto eu dito isto ele está bem atrás de mim, e em sua mente não há nenhum conhecimento de eu ter qualquer existência acima de meus quadris; de fato, sua concepção de mim agora parece-me ser como a de um par de calças vivo. Esta concepção o satisfaz plenamente. Se, contudo, ele me vê à distância, enxerga um pouco mais para cima, digamos até os ombros, e acima deles uma espécie de névoa brilhante. Ele tanto vê quanto sente a aura de saúde, e aprecia ficar dentro dela e receber o banho etérico.



20 de março de 1925


Depois de um intervalo de três meses ocorreu uma oportunidade de estudo adicional do gnomo. Ele tinha sido frequentemente visto na casa e no jardim, mas, à parte uma saudação e uma olhada em sua direção, nenhuma atenção especial lhe era dada. Investigando suas circunstâncias mais detidamente, descobri que ele tem sido objeto de uma experiência especial por parte do deva que parece ocupar a posição de guardião da vida elemental no jardim e no grande pomar em torno, onde muitos milhares de jovens árvores frutíferas estão crescendo. Evidentemente este deva está muito compenetrado no trabalho de estimular a evolução daqueles sob sua responsabilidade, e sua atitude é muito semelhante à de um treinador de animais ou de um jardineiro, que poderia selecionar este ou aquele animal ou planta para um tratamento especial. Ele observara que o gnomo havia se tornado amigável conosco, e decidiu tirar partido do fato.

Um resultado disto parece ser um considerável aumento na tendência imitativa natural do gnomo. Agora ele usa um colarinho branco que parece ter-se tornado permanente, e um casaco escuro, e seus membros inferiores estão perdendo sua magreza e estão começando a se assemelhar as pernas de calças. Também percebo que estas mudanças não são produzidas na maneira usual das fadas, como uma vestimenta acrescentada, mas são modificações reais do corpo etérico do gnomo.

Mais notável que todas é a mudança em seu rosto, que está se tornando nitidamente mais claro na cor e redondo no formato. De início eu pensei que um espírito da natureza inteiramente novo havia entrado na sala, mas de fato é o mesmo amiguinho, pois a natureza e forma do gnomo são facilmente detectadas “sob a pele”. Sua inteligência está nitidamente mais viva, e sua autoconfiança aumentou muito, pois ele subiu em meu joelho, embora não sem algum receio, a julgar pela expressão de sua face. Eu vejo agora que ele não faz isso por vontade própria, mas sob uma forte sugestão, quase hipnótica, do deva que está observando.

Eu estava pouco consciente fisicamente no momento em que ele subiu ao meu joelho, pois eu estava tentando contatar a mente do deva; senti então um tremor, uma frieza peculiar e um peso levíssimo em meu joelho, que atraíram minha atenção – e eis que lá estava o homenzinho. Ele não pode ver o deva, pois não possui visão astral, mas reconhece uma influência familiar, e obedece instintivamente às sugestões que a acompanham.

É evidente que em seu estado normal os gnomos são influenciados quase inteiramente pela consciência grupal, e que todas as suas atividades, na verdade todas as suas vidas, são expressões de impulsos instintivos que afetam toda a tribo. Só quando sua atenção é muito atraída para algum objeto externo, e a consciência é atraída para a forma etérica, é que existe uma semelhança de autoconsciência, e mesmo então é muito passageira. Para eles o progresso evolucionário é marcado por um gradual aumento no poder de consciência externa, na duração do tempo em que podem mantê-la, e por um aumento no grau de sua autoconsciência.



Auxiliado pelo deva, vejo que por fim chega um tempo em que o sentido de autoconsciência se torna relativamente permanente e o gnomo de todo esquece sua tribo e por conta própria empreende algum trabalho ou se compraz em diversões. Isto descreve, e explica, o fato mencionado em meu primeiro livro sobre as fadas, de que os gnomos eram encontrados solitários, bem como em grupos.

Ele diz que é possível a individualização do estágio de gnomo diretamente para as fileiras dos silfos, embora isto não seja usual, geralmente entrando em um reino elemental intermediário durante algum tempo. É difícil conceber o gnomo escuro e terrestre se tornando uma fada, mas o deva diz que não é incomum, e que, quando chega o tempo da mudança, o gnomo passa a ter mais e mais interesse em plantas, flores e árvores, gradualmente perdendo seu caráter terrestre e sua afinidade com este elemento, e assumindo as características das fadas.

Lembro com interesse como eu costumava ficar confundido de ver gnomos ligados a árvores e portando asas, mas parece – e o deva o confirma – que estes eram estágios de transição.

Ele explica que depois de passar por esta metamorfose, o gnomo se encontra em uma das famílias de fadas maiores, como as ligadas a árvores ou os tipos maiores de plantas floríferas; raramente, se isto chega a ocorrer alguma vez, ele inicia este novo ciclo de evolução aérea como uma das fadas menores como as que foram fotografadas – pois ele é nitidamente superior a elas na escala evolucionária.

No caso particular que estamos estudando, a ideia parece ser a de trazer o gnomo para um contato com a humanidade tão próximo e constante quanto possível; o deva acrescenta “numa atmosfera onde atuam influências ocultas”. Em outras palavras, ele está fazendo uso do fato de sermos estudantes de Teosofia e do elo que todo membro da Sociedade Teosófica tem com a hierarquia oculta que governa o mundo.

Ele diz que as mudanças produzidas ocorreram em cerca de quatorze (14) meses, e que ele começou a experiência no início do ano passado. Ele também põe o gnomo em contato frequente com nosso jardineiro, e vejo que o gnomo o segue por aí e brinca por perto dele enquanto ele trabalha. Ainda que todo o caso tenha um lado nitidamente humorístico, o deva o toma muito seriamente.

O deva em si é um indivíduo muito reservado e, embora amigável, tende a me considerar como uma parte útil em sua experiência, e mais como um acessório para ela do que como uma pessoa; de seu ponto de vista, toda a vida das fadas do jardim e pomar é afetada em grau considerável pelas vibrações teosóficas provenientes da casa; parece que nossas meditações e práticas de cura enviam influências para o jardim, que ajudam a evolução dos reinos elementais. Isto é o motivo de o deva estar interessado em nós e tentar tirar todo o partido possível de nossa presença aqui. Ele é benévolo, embora peculiarmente distante, sendo interessado quase exclusivamente em seu trabalho sobre seu próprio reino da Natureza. 

Toda esta propriedade de trinta e três (33) acres está inclusa em sua esfera de influência, embora não em sua verdadeira aura. Seu método me recorda aquele empregado pelo deva da floresta de Nateby, descrito em Fairies at Work and at Play (Fadas Trabalhando e Brincando). Ele trabalha principalmente de uma posição central no ar sobre a propriedade, em uma altura de onde ele pode convenientemente manter toda a área sob sua influência. Ele a isolou nos níveis mental, astral e etérico, enclausurando-a dentro de “paredes” construídas pelo poder mental. Ele emprega dois métodos: um é derramar uma influência estimulante geral de seu próprio Ser em toda a propriedade, estabelecendo uma condição para as fadas, similar à que uma estufa provê para plantas; ele também está em contato com fontes de poder espiritual, das quais ele é um canal para seus irmãos mais jovens. O outro método é por uma expansão de sua própria aura, cujas forças ele permite atuarem em várias partes do jardim e sobre diferentes grupos de espíritos da natureza. Ele é um perito neste trabalho, usando sua aura com a mesma facilidade com que usamos nossos membros; ele facilmente cobre um acre de terreno de cada vez, e aumenta seu brilho e densidade, afetando seja o todo, seja parte dele, à vontade.

Embora ele trabalhe nos níveis da forma, sua consciência se estende aos mundos sem forma, onde é visto como um Ser de considerável adiantamento. Ele percorre os três planos até o etérico com grande facilidade, mantendo ao mesmo tempo sua atividade no nível físico, e seu contato com seus pares e superiores. Ele usa seus veículos com tal liberdade, e é tão obviamente mestre em seu trabalho em cada nível, que não parece possível que o livre fluxo de poder e consciência entre o Eu e a personalidade jamais seja rompido ou ameaçado; nisto ele difere consideravelmente de seus irmãos humanos que, em seu reino, estão fazendo esforços correspondentes. O tremendo impedimento de possuir um corpo físico e de ser parcialmente aprisionado nele se torna muito óbvio nesta comparação, e o excessivo efeito limitante e aprisionador do corpo físico denso é percebido quase dolorosamente.

Na consciência dévica não vejo nada que corresponda à dor, desapontamento, depressão, medo, raiva ou desejo; nem há qualquer sinal de tensão, ou daquele intenso esforço que é requerido por nós para sobrepujar a inércia dos planos inferiores; nem ele tem que resistir àqueles apelos da natureza inferior pelos quais o aspirante espiritual humano é frequentemente atribuído. O conteúdo de sua mente parece ser, primariamente, um intenso interesse intelectual em seu trabalho, que se mostra pelo brilhante amarelo dourado, que é a cor predominante em sua aura, o afeto por aqueles a seu cargo se mostrando como rosa, o interesse em seu progresso e a extrema adaptabilidade se mostrando como verde-maçã com lampejos de verde esmeraldino, tudo irradiado por fortes correntes de um branco vívido e incandescente, que representa o ardor de sua natureza, estimulado e suscitado pelas forças superiores para as quais é um canal.

Não é fácil estimar seu tamanho, já que varia muito; quando primeiro o vi esta tarde ele havia descido até estar parcialmente dentro da sala, e então ele pareceu ter cerca de dois metros e meio (2,5m), no que se refere à sua forma verdadeira; mas no ponto a que retornou, tendo liberado as forças áuricas que havia detido temporariamente, ele parece muito maior – talvez três metros e meio (3,5m), enquanto que sua aura se expande até quase 40 metros em toda a volta no nível astral, e de  27 a 40 metros no mental; é mais ou menos ovóide na forma, ainda que sem margens definidas claramente, mas ele pode estendê-la três ou quatro vezes seu tamanho natural, ou fazer que todas as suas forças sejam direcionadas para baixo e para fora para atuarem na área a seu cargo. Ele parece gravitar naturalmente em um ponto cerca de 30 a 40 metros acima do solo. Sou inclinado a pensar por este exame mais detido que ele realmente está interessado em nós, não digo ligado, ao seu modo dévico; pois há um nítido sentimento de seu fraterno reconhecimento de nós, e agora que ele está menos concentrado em seu experimento com o gnomo (que volta e meia ainda fica brincando pela sala), sua formosa e nobre face agora se suaviza em um sorriso; em resposta à minha promessa de ajudá-lo em seu trabalho, de minha maneira humana limitada, ele estende sua mão abençoando, e enche-nos por um momento com sua energia vital.



Fonte: Livro O Reino Das Fadas – Geoffrey Hodson - Primeira Edição em 1927 - The Theosophical Publishing House - (Londres).

Bênçãos!
Namastê!


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